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sábado, 9 de junho de 2012

A história de Zé Neco e do Chico Motorista

Deus abate os altivos e abençoa os humildes

Por Marcelo Crivella/Fotos: Thinkstock
redacao@arcauniversal.com

Já se vão mais de 30 anos que um fato triste sucedeu no agreste da Paraíba. Uma senhora com quatro filhos, cujo marido fora tentar a vida em São Paulo, lutava sozinha, com todas as forças, para sustentar suas crianças.
Viúva de marido vivo, semelhante a tantas outras no Nordeste brasileiro, aquela pobre mulher trabalhava para Zé Neco, comerciante "bem de vida", como se costuma dizer de quem desfruta de uma ambicionada prosperidade, e filho do prefeito da cidade.
Embora não fosse lá um bom emprego, era dali que aquela senhora, uma verdadeira lutadora, tirava todo o sustento para si e para seus filhos. Certo dia, por problemas de política local, a senhora foi despedida do emprego, sem a menor chance de apelação. Ficou desesperada. Lembrou-se dos quatro filhos que dela dependiam; da conta da vendinha; dos uniformes das crianças para a escola; das despesas com os livros e cadernos, e pensava: "Meu Deus do céu, como vai ser a nossa vida sem esse emprego?".
- Zé Neco, pelo amor de Deus! Você sabe das minhas crianças e que eu não tenho outro lugar para trabalhar! Você não pode me despedir! — implorava ela.
Zé Neco foi implacável. Sem pestanejar, disse: — Aqui a senhora não fica mais e fim de papo!
"Vão-se os anéis e ficam os dedos", é o que dizem os pobres quando a desventura lhes bate à porta. A pobre senhora chorou durante todo o caminho de volta para sua casa. Chorou pensando nas crianças, mas a vida continuou, e Deus é maior.
A duras penas, passando inúmeras necessidades, sem falar na fome que, vez por outra, batia à porta da humilde casa daquela família, os filhos cresceram e um deles seguiu o sonho do sertanejo: vencer na cidade grande e tirar a família do sertão.
Francisco, o filho caçula, arrumou seus parcos pertences em um saco, despediu-se da mãe e pôs os pés na estrada, com destino ao Rio de Janeiro. Só Deus sabe o quanto sofreu! Sem profissão, sem amigos ou parentes na cidade grande.
Chico era apenas mais um em meio a tantos solitários em busca do sucesso. Desempregado, sem moradia e sem alimento, durante muito tempo perambulou pelas ruas da Cidade Maravilhosa, empurrado apenas pelo desejo de um dia ajudar a família que deixara para trás.
Deus é Pai e Chico foi para frente. Finalmente conseguiu seu primeiro emprego. A exemplo de tantos nordestinos sem uma especialização foi trabalhar na construção civil.
O primeiro salário foi recebido como um verdadeiro milagre. Com ele, Chico pôde entrar em um botequim, chamado pelos cariocas de "pé sujo", devido às poucas condições de higiene do local, e pagar seu primeiro almoço.
Depois, aprendendo aqui e ali, o rapaz foi tratorista, segurança e, finalmente, motorista de ônibus. Juntou dinheiro, comprou uma casinha e voltou lá para o agreste, para buscar a mãe, que nunca mais teve notícias do marido, desde que este também partira para a cidade grande.
Deus ajudava e Chico ia prosperando. A vida agora na cidade estava muito diferente da sua sofrida chegada. Casado, com filhos e na companhia da mãe, tudo era muito, mas muito melhor, que a infância no sertão.
Foi um dia, quando Chico dirigia o ônibus 326, da Viação Ideal, itinerário Castelo-Bancários, na Ilha do Governador, que o trocador, aborrecido, gritou da traseira do veículo:
- Ô Francisco, vê se faz alguma coisa, que esse sujeito já está me tirando a paciência!
Chico, pelo retrovisor, viu que se tratava de um homem bêbado, desses bem chatos, querendo por todo jeito arrumar uma briga com o pobre do trocador, e não titubeou: acelerou o que podia e, em seguida, passou uma "segundona", reduzindo a velocidade e fazendo o brigão vir "despinguelado" da roleta, até cair estatelado no capô.
Quem era o trapalhão? Para surpresa de Chico era o Zé Neco! O moço "bem de vida" lá do agreste, aquele que despedira sua pobre mãezinha, completamente fora de si, mais bêbado que um gambá.
No ponto final, Chico recolheu o ônibus à garagem e, na sua Variante, levou Zé Neco, desacordado, para sua casa. Lá chegando, sua mãe quase não conseguia acreditar. Era ele mesmo, o Zé Neco! Já não o viam há muito tempo, mas ainda assim não havia dúvidas.
O pobre infeliz, todo sujo, fez suas necessidades físicas com roupa e tudo, e dormiu como se morto estivesse. Muitas horas mais tarde, acordou e, para seu espanto, estava na casa da família à qual havia causado tantos infortúnios quando despediu a mãe, havia muitos anos, e que agora o tratava com tanto amor.
- Ô Zé Neco, lembra-se da gente? — perguntou a senhora, já abatida pela idade.
O homem estava muito embaraçado; na verdade envergonhado. Afinal, o rapaz importante, o filho do prefeito, foi encontrado caído, em péssimo estado, e recolhido justamente pela família em que tanto pisara. Foi levantando, ajeitando a roupa e, com poucas palavras, se mandando.
- Zé Neco, toma um café antes de ir! - ofereceu a senhora.
Que nada! O homem já se ia porta afora, para sumir em poucos minutos.
Não é isso que sempre lemos na Palavra de Deus? Que Ele abate os altivos e abençoa os humildes?
Francisco conheceu Jesus e hoje é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, o bispo Francisco de Assis, que já passou pela África e tem até CD gravado.
Durante muitos anos, nutriu o desejo de matar o próprio pai, quando o encontrasse, por tudo o que fizera a família sofrer, abandonando a todos no sertão. Após seu encontro com o Senhor Jesus, teve realizado seu desejo de reencontrá-lo, só que para lhe dar um grande abraço, perdoando-o em seu leito de morte.
A dedicada senhora já partiu. Está lá no Céu, com Jesus. Zé Neco? Bem, esperamos que tenha tomado juízo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Água limpa e água suja

A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos

Por Marcelo Crivella/Fotos: Thinkstock
redacao@arcauniversal.com

Foi por amor e obediência à Palavra de Deus, que Olindo Gonçalves largou sua pátria e amigos para fazer a obra de Deus no continente africano. Sua família, a esposa e os filhos, seguiu junto na aventura de conquistar as almas perdidas e levá-las aos pés do Senhor Jesus.
A vida em um país estranho, sem amigos e de outra cultura, traz sempre uma expectativa na alma, e só mesmo a fé em Deus pode dar forças nessas ocasiões. Foi em um desses momentos, nos quais nos perguntamos "meu Deus, o que é que eu vou fazer?", que o missionário se lembrou de que não estava sozinho. Ainda que não conhecesse ninguém naquela terra, poderia sempre contar com o apoio de outro pastor, irmão na fé, soldado da mesma guerra que, certamente, alegrar-se-ia com sua chegada e com quem encontraria orientação para o início do seu ministério.
Começar é sempre difícil, especialmente quando se luta contra o diabo, numa terra que não é a nossa. Há problemas com os papéis do governo, imigração, moradia, escola para as crianças, aluguéis e coisas do gênero. Assim, ele procurou e achou. Havia mesmo um conterrâneo radicado no país há muitos anos, pastor de outra igreja. Era tudo de que Olindo precisava naquele momento. "É uma bênção de Deus", pensou ele.
Na primeira vez que se encontraram, após os cumprimentos, as notícias que o missionário recebeu do pastor não foram lá muito boas. Aliás, foram as piores possíveis. O homem estava extremamente pessimista. Falava só de dificuldades, da impossibilidade de registrar junto ao governo um novo trabalho, da falta de união entre as igrejas e, para finalizar, falava até de uma possível guerra que estava prevendo para breve.
Finalmente, sugeriu: "Olindo, sem dúvida você veio no momento errado. Volte para a sua terra e, quem sabe, daqui a uns dois anos você possa voltar. Você tem mulher e filhos, e não vai querer arriscar a família numa guerra, não é?".
O missionário notou que havia algo estranho no modo de falar do pastor, mas, conversando com os outros radicados no país, ouviu o mesmo. Ora, se o país está com tantas dificuldades, é lá mesmo que Deus precisa de homens de fé, para amarrarem os demônios e mudarem a situação.
Olindo não olhou para trás e continuou seu caminho. Conhecia o poder de Deus, sabia do seu chamado e não olhava para as dificuldades. O trabalho cresceu; os pastores, que antes não ajudaram, passaram a criticar, colocando defeitos em tudo que Olindo fazia.
Este episódio me faz lembrar-se do cavalo, que quando vai beber água, ao ver a própria imagem refletida no espelho das águas, pensa se tratar de um outro animal que vem para beber, e bate com as patas no chão, para espantá-lo, mas apenas levanta a terra do fundo e acaba por beber a água suja.
Jesus disse:
"A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara." Mateus 9.37,38
Esta é a grande verdade. A seara é imensa e os trabalhadores são poucos, porém há os que creem e agem exatamente ao contrário: procuram com todas as forças impedir o crescimento de qualquer outro trabalhador, achando que se trata de um rival, à semelhança do cavalo. Assim fazem de uma água tão cristalina e pura, e tão boa de beber, uma água suja pelas suas próprias patadas.

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